Mortes de jornalistas no conflito em Gaza são quase três vezes maiores do que nas duas Guerras Mundiais somadas
A morte de seis jornalistas — sendo cinco da rede al-Jazeera — na Cidade de Gaza, no domingo, se tornou mais um trágico exemplo da violência contra jornalistas desde o início do conflito no território. Segundo o Comitê de Proteção de Jornalistas (CPJ), uma ONG voltada à defesa da liberdade de imprensa, foram 186 profissionais mortos desde em outubro de 2023, o mais alto número na História moderna, e quase três vezes maior do que o registrado nas duas Guerras Mundiais. Diante das pressões e condenações, Israel, ao mesmo tempo em que lança acusações contra os jornalistas mortos, já considera permitir a entrada da imprensa estrangeira em Gaza.
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Um dos mortos no ataque de domingo foi o conhecido correspondente Anas al-Sharif, acusado por Israel, sem evidências concretas, de ser parte da ala militar do Hamas em Gaza. Em entrevista ao CPJ em julho, ele disse que as alegações “não eram apenas uma ameaça midiática ou uma destruição da imagem, mas sim uma ameaça real à vida”.
— Tudo isso acontece porque minha cobertura dos crimes da ocupação israelense na Faixa de Gaza os prejudica e mancha sua imagem no mundo. Eles me acusam de terrorista porque a ocupação quer me assassinar moralmente — disse o jornalista.
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Segundo os números do CPJ, desde outubro de 2023, quando os ataques do grupo Hamas contra Israel, que deixaram 1,1 mil mortos, levaram ao início da operação militar em Gaza, 186 jornalistas morreram no enclave — as autoridades sanitárias de Gaza falam em 238 mortos —, e 90 foram presos por Israel. No ano passado, o Comitê afirmou que Israel foi o segundo país que mais prendeu profissionais da imprensa no mundo, na maioria nos territórios ocupados de Gaza e Cisjordânia, atrás apenas da China.
Como aponta um levantamento feito pelo Projeto Custos da Guerra, da Universidade Brown, nos EUA, jamais tantos jornalistas morreram em um conflito armado na História moderna como em Gaza. Para efeito de comparação, o estudo aponta que 69 jornalistas morreram nas duas Guerras Mundiais, 71 nas guerras dos EUA no Vietnã, Camboja e Laos e 19 desde o início da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2024.
“Desde a década de 2000, governos nacionais e grupos terroristas – de Israel, o regime sírio de [Bashar al] Assad e os Estados Unidos ao Estado Islâmico – encontraram maneiras de restringir a cobertura de conflitos por uma série de meios, desde políticas repressivas até ataques armados”, afirma o relatório do Projeto Custos da Guerra. “Todos mataram jornalistas e ajudaram a fomentar uma cultura de impunidade, transformando zonas de conflito como Síria e Gaza em ‘cemitérios de notícias’.”
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Desde o início da guerra, a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) entrou com quatro queixas contra Israel no Tribunal Penal Internacional, em Haia. Na última ação, em novembro do ano passado, a instituição afirmou que as mortes de jornalistas “permanecem impunes”, e que os ataques constituem um “massacre sem precedentes”.
A RSF, ao lado de dezenas de organizações de defesa dos direitos humanos e da liberdade de expressão, também exige o fim do bloqueio à entrada de jornalistas de fora de Gaza no enclave, imposto desde outubro de 2023.
“O bloqueio midiático imposto sobre Gaza, com o massacre de quase 200 jornalistas pelo exército israelense, facilita a destruição total do enclave sitiado, bem como seu apagamento. As autoridades israelenses proíbem a entrada de jornalistas estrangeiros e orquestram um controle implacável da informação. Trata-se de uma tentativa metódica de sufocar os fatos, calar a verdade, isolar a imprensa palestina — e com ela, a população”, afirmou, em comunicado, Thibaut Bruttin, diretor geral da RSF.
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No domingo, em entrevista coletiva, o premier israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou ter orientado o Exército a se preparar para levar mais jornalistas estrangeiros a Gaza, para que “vejam com os próprios olhos” as ações israelenses, incluindo na distribuição de ajuda — a ONU e organizações humanitárias afirmam que o novo sistema de ajuda, liderado por uma fundação financiada pelos EUA, é ineficiente e mortal para os civis. Apesar das preocupações com segurança, Netanyahu diz que “isso pode ser feito”.
Nos últimos dois anos, a imprensa de outros países conseguiu entrar em Gaza ao lado de militares em alguns momentos, mas por apenas poucas horas, com o material produzido passando por análise e censura oficial antes de ser publicado ou transmitido. Por isso, a promessa de Netanyahu ainda é vista com certo receio, uma vez que, embora liberados para entrar em Gaza, não há qualquer sinal de que os jornalistas poderão trabalhar de maneira independente.
Mortes de jornalistas no conflito em Gaza são quase três vezes maiores do que nas duas Guerras Mundiais somadas .